20 DIAS 20 NOITES
Esse tópico do relato aconteceu há muito tempo, por isso não é possível recordar 100% dos detalhes. Eu e Edy conversamos muito sobre esse período; é claro que hoje enxergamos tudo por outro ponto de vista, inclusive rimos dessas lembranças.
Na época, porém, foi como esticar uma corda já tensionada, correndo o risco real de romper a relação com Edy. Darei início aos vinte dias de Edna, é o período em que estive mais ativa. Não participava à noite por conta das restrições impostas pelos meus pais. Edy escreverá a parte referente às vinte noites, já que passava a manhã em treinamento, então os relatos dele se concentram no período pós-treino. Esses vinte dias foram um verdadeiro esfregão na minha cara, como se a vida estivesse tentando me acordar da ingenuidade.
Tudo o que Edy me orientava, eu, teimosa, fazia questão de contrariar. Queria fazer do meu jeito.
20 dias de Edna
Foram vinte dias de ausência. Vinte dias sem Edy. Um sumiço que ardia sob a pele como febre. Me sentia num buraco fundo, abafado, escuro. Tudo o que tinha acontecido recentemente parecia ainda mais cruel em sua ausência. E naquela época não havia essa facilidade de chamadas, mensagens ou vídeo.
O silêncio doía como se me engolisse por dentro, a primeira semana demorou a passar como um ano letárgico. A abstinência sexual batia forte. o corpo clamava por ele, pelo toque, pela presença, pela sacanagem suada que sempre nos incendiava. Minha libido estava em erupção, o desejo fazia meus seios latejarem e meus pensamentos rodopiarem em espirais indecentes. Meu humor oscilava entre o surto e o choro e uma daquelas madrugadas em que a insônia dominava e a solidão parecia gritar dentro de mim, cedi.
Me afundei nos lençóis, sentindo a umidade já pulsante entre as pernas. O calor subia pelo meu corpo como fogo líquido, minhas mãos tremiam de tanto desejo acumulado.

De olhos fechados, imaginei Edy me prendendo contra a parede, sua respiração quente no meu ouvido, seus dedos em mim como se fossem meus. Recordações de aventuras paralelas se misturavam entre desejos, fantasias e algo mais....
... afundei os dedos na minha boceta molhada, um gemido escapou da minha boca. Gemia como uma cadela no cio, dedilhando com fúria, deslizando os dedos com velocidade crescente. Meus quadris se moviam sozinhos, implorando por mais. Desejando gozar muito, queria gozar, queria libertar tudo o que me ardia por dentro. O momento foi brutalmente interrompido, a luz do quarto se acendeu com violência, e a porta se escancarou com um estalo.
! ! ! ! Meus pais !!!!
Sim, meus pais ali na porta, me encarando. Eu, nua , com dois dedos enterrados no meio das pernas, os olhos virados, a boca entreaberta de prazer. O constrangimento foi imediato e cruel. Gritei, puxei o lençol, mas era tarde demais, minha mãe soltou um grito de horror, meu pai ficou pálido, depois vermelho. Me senti como uma criminosa, as broncas vieram como tiros, me chamaram de imoral, de sem-vergonha, de tudo que pais conservadores são programados para despejar diante da sexualidade da filha.
Chorei, chorei como nunca, não era apenas vergonha, era humilhação, era o peso do julgamento, o medo, a raiva, a impotência. Dias depois, eles me empurraram para o consultório de uma terapeuta, tentativa frustrada de “me consertar”.
A mulher parecia uma cópia fria da minha mãe, dizia coisas como "o que está sentindo é hormonal" e "precisa se dar mais valor". Não ouvi uma única palavra de acolhimento, saia de lá mais irritada do que entrei, a tensão só aumentava. Minha menstruação atrasou, e um pavor ainda maior se instalou. Grávida? E agora? Não tinha com quem conversar, com meus pais era impossível, foi então que recorri à minha tia, a única pessoa com quem eu ainda conseguia respirar. Liguei chorando, ela veio, me abraçou, me ouviu, me deu bronca, sim, mas foi a primeira a entender minha dor sem me julgar por completo.
Ela me levou ao ginecologista, e gravidez descartada, porém um outro diagnóstico me abalou: uma infecção. O médico explicou que poderia ser resultado de penetração anal seguida de penetração vaginal sem higienização ou uma eventual contaminação. Não lembro o nome da bactéria, só sei que o susto me rasgou. Era nojento, era doloroso, era... desesperador. Injeções, antibióticos, medo e Edy... como eu explicaria isso para ele? Tão metódico, tão sistemático, minha tia tentou me acalmar.
Disse que ela mesma teria essa conversa com ele, eu só conseguia imaginar o julgamento nos olhos dele, mais uma vergonha, mais um peso, mais um medo. No trabalho, eu estava uma merda, desatenta e instável. O RH me chamou para conversar, me perguntaram por que eu andava chorando pelos cantos e eu justificava que eram problemas em família e que estaria melhorando meu comportamento. No dia seguinte, descobri que Matheus, o cara com quem já tinha me envolvido, tinha se desligado da empresa.
Ninguém sabia dizer exatamente o motivo e as fofocas começaram. A rádio peão que deixava qualquer um paranóico comentava desde novo emprego a problemas com envolvimento intimo, e eu, frágil, sem chão, já me sentia como a próxima a ser chutada. Edy sempre me alertava que eu era paranoia, que eu dramatizava tudo e precisava amadurecer.
Wagner apareceu um dia na empresa em horário de almoço, percebeu meu estado, conversamos pouco e no final do expediente, estava na porta da empresa. Insistiu pra gente conversar, eu resisti inicialmente, mas fui. Precisava despejar aquilo tudo em alguém. E ele ouviu. Sem tentar me levar pra cama, sem tirar proveito da minha fragilidade, me senti respeitada, e surpresa. Porque, naquele momento, não esperava mais nada decente de homem nenhum, cheguei em casa exausta, e lá estava Matheus, sentado na sala com meus pais.
Conversa mole, ar de quem queria causar, fui grossa e meus pais me repreenderam. Nos isolamos saindo para rua, ele despejou um monte de coisas sobre Edy. Acusações, distorções, raiva, dsse que Edy não era quem eu pensava, que eu estava sendo traída, enganada, feita de trouxa. Minha cabeça rodou e surtei, dei um tapa na cara dele, chamei de frouxo, de infantil, de covarde. Ele revidou com palavras ainda piores, me chamou de burra, de fraca, de chifruda. Eu estava por um fio, a insegurança me corroía por dentro.

Dormia mal, acordava com o peito apertado, as crises de ansiedade se intensificaram. A psicóloga, não me ajudava, sempre era eu o problema e não sabia resolve-los, parecia que eu estava sendo julgada de novo, só que de jaleco. A cada dia, Edy se aproximava de voltar, tinha que sobreviver a esse inferno astral, me enganava que era uma fase. Eu já não sabia quem era Edy, o que realmente ele fazia, o que escondia. Matheus, mesmo babaca, plantou dúvidas que cresciam feito erva daninha, minha tia, tentando me acalmar, dizia pra eu esperar, conversar, dar um voto de confiança, ela riu quando contei algumas das histórias que Matheus falou.
"- Você é muito inocente", ela disse.
"- Inocente, como?"
"- Sabe de nada."
E aquele sorriso irônico dela ficou martelando na minha cabeça por dias. A tal “Japa zaroia”, aquela vaca que eu imaginava esfregando o rabo em Edy, não tinha ido ao Rio Grande do Sul, nem Mônica. Era tudo papo furado, e minha raiva de Matheus cresceu, fofoqueiro linguarudo e sem noção. Os últimos dias antes do retorno de Edy foram de pura exaustão. No trabalho, a nova equipe me acolhia melhor, surgiram até olhares diferentes.
Mas eu me mantinha neutra, distante. Estava cansada demais pra mais uma dor de cabeça. Em casa, eu não tinha mais privacidade, a masturbação virou um luxo arriscado, eu mal conseguia pensar em gozo, meu tesão era sabotado pela vigilância, pela culpa, pelo medo. Meus sonhos se misturavam com muitas sacanagens nem realizadas, somente imaginadas.
Sonhava com Edy, com os gemidos abafados, a cara de cafajeste e seu jeito único com os olhos dele me devorando. Com aquela maneira firme de me segurar pelos cabelos e dizer:
"- Agora você é só minha."
E talvez... ainda fosse.
Ref.: 1995 #0016
(*) FOTOS DA INTERNET - IMAGENS PARA MERA ILUSTRAÇÃO - FONTE INTERNET